Entre Bestas e Deuses
- 21 de ago. de 2019
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Desde o início da aventura da raça humana no planeta, passamos por incontáveis provações e dificuldades. A adaptação e sobrevivência de seres tão frágeis quanto nossos antepassados frente a um ambiente tão hostil e perigoso, certamente foram os primeiros grandes desafios enfrentados pela nossa espécie.
Proteger-se dos diversos tipos de predadores e conviver com as intempéries ambientais, forçou aqueles hominídeos a valer-se de todo tipo de astúcia para desenvolverem estratégias de sobrevivência. Com o passar dos séculos, as civilizações foram se organizando de tal forma, que conseguiram não só a sua sobrevivência, mas a ocupação de todo o planeta. E com essa ocupação, sobreveio uma sensação de domínio e superioridade que, paradoxalmente, coloca em risco a própria vida no planeta Terra.
Nesse percurso, de quase vítima à possível algoz do planeta, os seres humanos mudaram física e espiritualmente. O desenvolvimento dessas duas dimensões, que nos primórdios eram praticamente indissociáveis, é de suma importância para a formação de uma organização social que permitiu conquistas espetaculares e atrocidades inimagináveis. O sagrado e o profano são marcas indeléveis de nossa humanidade.
Com o advento do que se convencionou chamar Idade Moderna, uma nova dimensão ganha escopo e vai assumindo ares de Verdade: a ciência. Nesse contexto, o conhecimento científico vai marcando terreno e faz questão de diferenciar-se de todas as formas anteriores de interpretação dos fenômenos que norteiam o desenvolvimento humano. A razão humana, objetiva, fria e calculista se apresenta como paradigma para solucionar todos os tipos de mazelas que pudessem afligir a dita sociedade moderna.
A psicologia, como a conhecemos hoje, surge nesse contexto e, para ser reconhecida, almeja o status de ciência. E para tanto, imita, num primeiro momento, as ciências da natureza, primando pelo positivismo inerente àquela concepção. Com o tempo, descobre que seu “objeto de estudo” não pode ser confundido com os de suas parceiras congêneres. As ideias concebidas por Sigmund Freud no final do século XIX culminaram, no alvorecer do século XX,na psicanálise que, por mais que mantivesse certo elo com premissas das ciências naturais através de algumas concepções metapsicológicas, rompe com tradições e “inaugura” uma nova área de investigação do viver humano: a psique.
A psique, enquanto mundo interno, obedece a uma dinâmica que, se em alguns aspectos pode guardar certas semelhanças com o mundo externo, em sua essência é absolutamente ímpar e particular. Explorá-la exige disciplina e respeito. É como adentrar um local sagrado. Mas o psicólogo se não é um cientista na acepção positivista do termo, tão pouco é um sacerdote. Não lidamos com forças místicas e sobrenaturais, nossa atuação precisa ser norteada por preceitos e regramentos claramente definidos e estruturados por pesquisas, estudos e experiências práticas. Ou seja, o fazer psicológico é caracterizado por um rol considerável de conhecimento que, por sua estrutura, pode ser definido como científico.
Nesse inicio de milênio os avanços tecnológicos, possibilitados pelo desenvolvimento das ciências em geral, garantem para uma parte da população (a que tem acesso) condições de vida que atendem a praticamente todas as suas demandas materiais. Também vivemos tempos em que demandas espirituais podem ser satisfeitas com considerável facilidade. Não obstante, vivemos tempos bastante difíceis do ponto de vista individual e social. Sofrimentos persistem.
Entre bestas e deuses, nem uns nem outros, algumas vezes uns, outras vezes outros, na maior parte do tempo, uns e outros... A aventura humana prossegue.
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